Tem sido difícil escrever esta semana. Há dias que andamos escondidos, por falta de clareza, mas sobretudo porque estamos cheios de medo. Não tem sido fácil sobreviver nestes dias, comparados com os dias seguintes à acção judicial, esta semana faz parecer esses dias umas férias de verão dos estudantes, que passaram para o segundo ano de faculdade. Relatar os acontecimentos desta semana é uma tarefa inóspita, árdua, complicada, mesmo para mim.
Há uma semana atrás enquanto lavava a loiça, estavam na sala a conversar: Stonexxx, Tanner & Jones e o cagalhão. Bem, na realidade Stonexxx e Jones diziam umas palavras soltas, enquanto Tanner e o Kosta acenavam compreensivamente, embora o último não compreendesse nada do que se dizia. Quando acabei, parei à porta da sala para lhes falar.
- Pronto já está!
- Como é que fizeste isso? – questionou-me Jones desconfiado.
- Sim, porque desconhecia as tuas façanhas de magia… - comentou jocosamente Tanner – Lavar a loiça toda, em dez minutos…
- Incrível, a fazerem uso da vossa aptidão de detective, já há algum tempo que isso não se mostrava. – respondi-lhes – Além do mais, não posso revelar os meus truques de magia, mas deixo um nome no ar: Máquina de lavar.
Como não fiquei na sala, não sei se desenvolveu a conversa, até mudar a nossa existência por completo. Porém, imagino que tenha sido algo como isto.
Na minha visão, eles estariam na sala, iluminada pela televisão, que passaria um programa da TVI. Eles seriam um grupo constituído pela média de Q.I. da audiência do tal canal e estariam a saltar em cima dos sofás e da mesa (que todo o português tem na sala, para pôr coisas). Estes quatro chimpanzés se emocionariam quando o programa mostrasse como se faz uma bomba de ácido. E então decidiriam fumar uma.
Para quem não sabe, a bomba de ácido proporciona um espectáculo questionável, todavia é uma experiência bastante enriquecedora para mentes ávidas pela descoberta, os quais são perseguidos por vaginas nos seus pesadelos, que é o meu caso, e também é uma enriquecedor para indivíduos que necessitaram de uma hora, para aprenderem a separar o lixo, como é o caso destes destemidos jovens cerebrais. Portanto, foi sobre este último pretexto, que decidiram fazer uma bomba de ácido muriático contudo, para aumentar a adrenalina, que alimentam estes seres exóticos, sedosos por novas experiências e por pregar partidas, decidiram provocar esse ilustre espectáculo num bairro social. O bairro escolhido foi o bairro da Rosa, frequentado maioritariamente e estranhamente por imigrantes de leste e como se esta audácia não bastasse, decidiram fazer de madrugada.
Pelo pouco que sei, a hora marcada foi para as cinco da manhã. Obviamente, estes amadores não me convidaram, à hora do acto eu dormia numa ignorância feliz, entre pesadelos com vaginas e mamas. Na minha feliz ingenuidade, eles não me convidaram porque sabem que só acordo ao meio dia… (Não me julguem, fico a escrever até tarde.) Mas a realidade é outra. Antes de Tanner apreender um carro para si, eu era o único que possuía um carro próprio, comprado com o dinheiro da árvore das patacas, e nessa altura, todos eram amiguinhos e me faziam favores, depois disso deixei de ver até o Prof. K.
Mas voltando à história, o Kosta adormeceu, eles ignoraram e seguiram o seu caminho. Isto para mim é óptimo, uma vingança pessoal, a qual nem tive de fazer nada, quando era comigo, o Costa nunca ficou em casa, até cheguei a defendê-lo, que seja uma lição. Às cinco horas e oito minutos, a bomba explodiu, houve vinte segundos de silêncio, que foi quebrado por um tiro de uma arma. E não houve mais silêncio naquele bairro durante dias…
Provavelmente, já viram, leram, ouviram esta notícia nos média. Por isso não me vou alongar sobre o assunto, até porque não estive presente. Pelo que sei, esta brincadeira gerou uma guerra tribal e depois envolveu-se com a polícia e houve várias mortes de ambos os lados.
Continuando, Tanner acordou-nos de rompante a todos, inclusive o Ramon, que não imagino, porque raio dormia ele no quarto do professor. E porque raio o chamamos professor?
- Seu animal, não vês que horas são? – questionou enervado o professor.
- Sei lá, cinco e meia? – respondeu Tanner sem entender a razão de tal alvoroço.
- E o que costumas fazer a esta hora?
- A prender gente inocente como bodes expiatórios, para os meus crimes…
- Imagino, - comentei – e com que cérebro fazes isso? Pedes algum emprestado?
- Duh… Devo ser o mais inteligente da força…
- E o mais forte também! – elogiou Ramon.
- Duvido – desdenhou Jones.
- Parem com o “speak”, torrados. Temos de dar de fuga! – exclamou no seu próprio dialecto Stonexxx.
- Se for para ir para a Figueira da Foz e ir ao seu casino, podes-me dizer. – disse o prof. – Que eu alinho.
- Siga. – respondeu Tanner.
- Não, burro do caralho. Tenho que ‘tar sempre a dizer-te as coisas, vamos embora, - ordenou Jones – vamos, não há tempo para explicações.
Saímos todos num monovolume, apreendido pelo Jones. A meio do Alentejo, o professor perguntou:
- Já temos tempo para uma explicação?
- Não… - respondeu Jones secamente.
- Quem arranjou este carro?
- O Jones claro… - Tanner meteu-se na conversa, chateado.
- Devíamos ter feito como tu querias, dois Honda Civic rebaixados… - disse Jones amargamente.
- É o polícia mais inteligente da força, sem dúvida. – ironizei.
- Podemos ir comprar bolachas? – perguntou o Kosta.
Ninguém lhe respondeu. Passado uns minutos e uns quantos quilómetros o prof. K. perguntou:
- Temos tempo para ir comprar bolachas?
- Para isso temos, - respondeu Jones – onde queres ir comprar?
- Para isso já temos tempo? É melhor ignorar… Vamos ao LIDL.
- És maluco.
- Dia?
- Daqui bocado queres ir à praça – e ria-se sozinho Jones.
- Onde? Então? Modelo?
- Sim, podemos ir aí.
- Qual é a diferença?
- É uma longa história…
- O que ‘tavas a fazer no quarto do professor? – perguntou o Kosta ao Ramon.
- Estava a…
- ‘Tá calado, florzinha! Não queremos saber. – disse Tanner.
Chegamos ao Allgarve. O Dr. Martin já nos esperava.
- Bem-vindos à minha santa terra, colónia britânica. Já vos arranjei “a nice place”, para permanecerem.
Tanner contou a história toda, com detalhes fantásticos, literalmente e com algumas mudanças subtis, tais como:
- Foda-se Kamon, só tens ideias de merda – reclamou comigo o prof. K.
- Oi? Eu nem sabia o que se passava até agora!
- Deves esperar que eu acredite em ti?
- Não se vê logo, que é uma ideia vil, só podia vir do teu cérebro esmagado, dentro desse teu crânio minúsculo. – picou o otário do Kosta.
- Tu ‘tá caladinho, ó cabeçudo. Vai mas é mandar cabeçadas nas empenas da praia de Albufeira.
Isto sim, foi uma ideia vil. Meia dúzia de pessoas perdeu a vida graças a esse pequeno incidente. Estúpido cagalhão que acarreta qualquer ordem, Maria-vai-com-as-outras.
- Também, - continuei – ninguém deve saber que estamos envolvidos, e mesmo que se descubra, não terá represálias no julgamento. Temos sempre o Dr. Joseph para nos defender. – apontei para o doutor que coçava a pêra à advogado.
- Não te deixes iludir pela barba. – respondeu Dr. Martin.
E por isso tivemos umas ricas férias no estrangeiro, porque ainda ninguém teve coragem para sair de casa...
